quinta-feira, 28 de junho de 2012

Quem vem ouvir o Ho-ba-la-lá?

Diz lá a sinopse do livro: “Sehnsucht é a palavra alemã para anseio. Ela se aplica tanto ao passado, contexto em que se pode traduzi-lá por saudade, como ao presente ou ao futuro, caso em que designa um desejo ardente pelo que é, no fundo, inatingível”. Pois bem, vem daí o nome desse blog, assim mesmo, em alemão (até porque “Rádio Saudade” seria de matar).

Voltando ao livro. Uma fatalidade marcou a publicação de Ho-ba-la-lá na Alemanha: a poucos dias do lançamento, em abril de 2011, o autor, Marc Fischer, cometeu suicídio. Esse fato só faz aumentar a curiosidade acerca do trabalho; afinal, o jornalista e escritor teria ou não cumprido sua missão no Brasil antes de partir desta para melhor?

A tarefa não era fácil, para não dizer impossível. Fischer, acompanhado apenas de um violão centenário, deixa para trás Berlim e uma paixão, para encontrar, no calor do Rio de Janeiro, sua outra paixão: a Bossa Nova. E mais que isso, encontrar também João Gilberto, a quem pediria uma única coisa: que tocasse Hô-bá-lá-lá, a canção que mudou sua vida e o fizera viajar até ali. Esse é o ponto de partida de uma instigante e divertida história, na melhor tradição das tramas de detetive, em que Fischer e sua assistente brasileira Rachel seguem inúmeras pistas em busca do mais inacessível artista brasileiro.

Para chegar ao atual paradeiro do ídolo, Marc Fischer precisa voltar no tempo e montar um complexo quebra-cabeça a partir de depoimentos de pessoas que convivem ou conviveram com o músico: expoentes da Bossa Nova, como Miúcha, João Donato, Marcos Valle, Joyce e Roberto Menescal; a jornalista Claudia Faissol, com quem João tem uma filha de oito anos; e o cozinheiro Garrincha, que por cinco anos preparou um dos pratos preferidos do baiano radicado no Rio. A investigação também leva o “detetive” a Diamantina, em Minas Gerais, onde, há mais de meio século, João Gilberto se refugiou e desenvolveu seu estilo, literalmente, na privada.

De certa forma, Ho-ba-la-lá remete a outra obra, também alemã, Cabeça de Turco, clássico do jornalismo literário de Günter Wallraff, talvez pelo afinco dos autores em ir até as últimas consequências para aplacar seus anseios: Wallraff, de denunciar o tratamento desumano dado aos imigrantes em seu país; Fischer, de encontrar o coração da beleza. Se ambos foram bem-sucedidos, só lendo os dois livros para saber.

Roberto Menescal havia alertado: “Ele [João Gilberto] muda as pessoas com quem tem contato. É capaz de você se tornar um amaldiçoado para todo o sempre”. Seria Marc Fischer mais uma vítima da “maldição”? Inútil se perder em conjecturas. Felizmente, houve tempo para que deixasse seu legado, na forma desse belo registro.