segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Alberto Marsicano: quando o rock e a música indiana se encontram


O sitar é um instrumento de cordas, da família do alaúde, inventado na Índia no século XIII e um dos principais símbolos culturais daquele país. Sua difusão no Ocidente se deu na década de 1960 pelas mãos de Pandit Ravi Shankar (1920-2012); mas foi graças a George Harrison, amigo e discípulo do mestre indiano, que o instrumento caiu no gosto popular (podendo ser ouvido em canções como Norwegian Wood e Within You, Without You, dos Beatles). Ravi Shankar representa para o sitar o que Jimi Hendrix representa para a guitarra elétrica ou Luiz Gonzaga para a sanfona. Aliás, esses três nomes estão diretamente ligados à obra do paulista Alberto Marsicano, principal difusor do sitar no Brasil. Fã de Beatles e Rolling Stones – que também utilizou o instrumento na música Painted It, Black –, Marsicano teve aulas com Ravi Shankar em Londres, nos anos 70. De volta ao Brasil, decidiu se aventurar para além das fronteiras da música tradicional indiana, recriando no sitar clássicos do rock e da MPB (como Asa Branca, do rei do baião). Frequentemente participa de compilações e também colabora com outros músicos – uma das parcerias mais recentes foi com a banda paraibana Cabruêra, no álbum Nordeste Oculto (2012). Entre seus vários projetos, um dos mais bem-sucedidos é o Marsicano Sitar Experience, que em 2006 lançou o álbum Sitar Hendrix, com releituras do guitarrista estadunidense, trabalho que chegou a ser pré-indicado ao Grammy na categoria World Music. Além de músico, Marsicano também é filósofo, tradutor e poeta. Saiba mais na entrevista a seguir.

Radio Sehnsucht: Qual foi sua primeira paixão, o rock ou a música indiana? Como esses estilos se cruzaram na sua vida?
Alberto Marsicano: Tenho um tio nascido em Goa (Índia) e já ouvia música indiana desde pequeno. Iniciei-me no violão clássico e guitarra flamenca, e com 14 anos já estava com uma Gibson SG. Minhas primeiras influências no sitar foram George Harrison (Beatles) e Brian Jones (Rolling Stones), que hoje sinto abençoarem meu “sitar rock”.

Como foi o aprendizado com Ravi Shankar?
Cheguei a Londres nos anos 70. Shankar estava abrindo aulas de sitar para grupos de alunos iniciantes, pois não havia ninguém adiantado no Ocidente. Ele me incumbiu de levar a tradição do sitar para o Brasil. Incentivado e iniciado por esse grande mestre, assumi a missão e rumei para Varanasi, na Índia, onde estudei na BHU (Benares Hindu University) que mantém o RIMPA (instituto de artes fundado por Ravi Shankar). Lá aprofundei meus estudos com Shankar e Krishna Chakravarty.

Você já fez versões para sitar de clássicos do Pink Floyd, Black Sabbath, Iron Butterfly, entre outros. O que o levou a gravar um álbum só com músicas de Jimi Hendrix?
Hendrix tocava sitar e pretendia difundir o instrumento no rock. Gravou Cherokee Mist com sitar, faixa que integraria o disco Axis: Bold as Love, mas que acabou retirada do disco pela gravadora por ser muito experimental.  A morte do guitarrista interrompeu esse sonho, que foi retomado por mim. Gravei então o disco Sitar Hendrix, que inclusive foi pré-indicado ao Grammy.



Você também gravou um CD de versões dos Beatles (Raga Beatles). Esse registro chegou a ser lançado oficialmente?
O Raga Beatles conta basicamente com sitar e tabla. Nele, toco peças dos Beatles em que o sitar não foi usado em arranjos inéditos. Estou à procura de uma boa gravadora. O trabalho foi gravado em surround 5.1.

Quando se fala na divulgação da música indiana no Brasil, logo pensamos em Alberto Marsicano e na cantora Meeta Ravindra. Quais outros músicos você destacaria em nosso país?
Destacaria os tablistas Edgar Bruno e Caito Marcondes.

Alguns de seus shows foram baseados no repertório de Tom Jobim, João Gilberto e outros nomes da Bossa Nova. Você também lançou um MCD com transcrições para sitar de Villa-Lobos (Raga do Cerrado). Que outras releituras você já fez de compositores brasileiros?
Em 1992 iniciei o projeto Sitar Bossa, ainda não gravado em disco, num show do Sesc Instrumental. O trabalho foi copiado por tentativas diluidoras e mal resolvidas [de fundir a Bossa Nova com a música indiana], como o infeliz Bossa Delhi. Isso já havia ocorrido comigo na década de 80, quando apresentei no MASP uma versão para sitar de Asa Branca. O [Zé Eduardo] Nazário, percussionista de Egberto Gismonti, mostrou a esse uma fita cassete com o registro, e Gismonti simplesmente a gravou no sitar sem “sitar-me”. Mesmo assim, dou continuidade ao meu trabalho.

Já recebeu algum feedback ou leu comentários de músicos cujas composições foram reconstruídas por você?
O feedback mais marcante veio de Syd Barrett, ao ouvir minha versão de Vegetable Man [música do Pink Floyd composta por Syd que inspirou o tributo The Vegetable Man Project, do qual Marsicano participou, lançado pelo selo italiano Oggetti Volanti Non Identificati]. O pessoal da gravadora entregou o CD a ele pessoalmente em Cambridge (Inglaterra). Syd ficou curioso em ouvir sua música no sitar e na hora colocou o disco pra tocar. Segundo os produtores, ele rira e disse ter gostado muito da minha versão.

Você também é escritor, com várias obras editadas, tendo inclusive organizado um livro sobre Jim Morrison (Jim Morrison por Ele Mesmo, editora Martin Claret). O que lhe atrai na vida e obra do vocalista do The Doors?
Sempre gostei do Morrison, tanto sua música como sua vida. Foi um líder revolucionário e morreu numa banheira em Paris, como Marat [Jean-Paul Marat, cientista, médico e jornalista ligado à Revolução Francesa]. O livro “estourou”, pois foi lançado simultaneamente ao filme The Doors e vendeu em torno de 800 mil exemplares.

Quais são seus atuais projetos?
Agora estou traduzindo a poesia clássica chinesa para a editora Demônio Negro.

Atualização do post: essa foi uma das últimas entrevistas de Alberto Marsicano, que veio a falecer em 18 de agosto de 2013, aos 61 anos.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Canções de Natal: três álbuns que fogem da mesmice da ocasião

Em boa parte do mundo a cena se repete todo final de ano: ruas, prédios, praças e, principalmente, lojas, se enfeitam para o Natal. No caso do nosso país, tal cenário é envolto por uma aura particularmente kitsch: decorações com muita “neve” e repletas de esculturas de animais alienígenas à nossa fauna, como renas e ursos – tudo sob uma temperatura escaldante. Claro, um monte de gente adora. Outra tradição desta época, apesar de não encontrar muito eco por aqui, são os discos de Natal. Nos Estados Unidos, por exemplo, é comum artistas dos mais variados gêneros – até mesmo do metal – lançarem singles ou mesmo álbuns inteiramente dedicados ao tema. No entanto, o resultado é quase sempre constrangedor. Em compensação, alguns trabalhos conseguem ser originais e acabam agradando até mesmo o público secular.

Ornamental (V/A) - Lançada em 2012, a compilação do selo estadunidense Projekt – especializado em gothic, ambient, ethereal e afins – traz 23 faixas divididas em dois CDs: o primeiro reúne versões de músicas tradicionais interpretadas por nomes como All My Faith Is Lost, Nick Jaine e Mirabilis; o segundo apresenta canções originais que, direta ou indiretamente, estão relacionadas com o Natal, como a releitura do black tape for a blue girl para Forbidden Colors, de Ryuichi Sakamoto e David Sylvian, tema do filme Furyo - Em nome da honra (com David Bowie).

Lovespirals – Happy Holidays




Dark Mark Does Christmas 2012 (Mark Lanegan) - Gravado de forma descompromissada, este ep de 6 faixas, vendido exclusivamente nos shows da turnê mais recente do ex-vocalista do Screaming Trees, presenteia o ouvinte com versões sorumbáticas de hinos natalinos como O Holy Night e We Three Kings, em que a produção lo-fi apenas acentua o poder da voz rouca de Lanegan. O compacto fecha com Burn The Flames, cover de Roky Erickson.

Mark Lanegan – O Holy Night



50 Words For Snow (Kate Bush) – Após 11 anos afastada do show business, a cantora britânica voltou à ativa com o álbum duplo Aerial, de 2005. Seis anos depois, a intérprete de Wuthering Heights lançou este que é seu primeiro trabalho sazonal. 50 Words For Snow não é um álbum natalino; na verdade, como o título sugere, temos aqui sete longos temas (a faixa mais curta ultrapassa os seis minutos) inspirados na neve, elemento que, invariavelmente, evoca a celebração cristã em qualquer parte do mundo – inclusive em nosso país tropical.

Kate Bush – Misty (Edit)

sábado, 7 de julho de 2012

Rock japonês: muito além do visual kei

Quando se fala da atual produção roqueira/metálica na terra do sol nascente, muitos imediatamente pensam na estética excêntrica de algumas bandas, que muitas vezes desperta mais atenção do que a música em si. Felizmente, outros grupos preferem adotar uma postura mais sóbria, longe da extravagância do visual kei, lançando obras originais e musicalmente relevantes. Conheça a seguir quatro nomes de respeito da cena nipônica.


Mono – Um dos principais nomes do post-rock mundial, o Mono surgiu em 1999, em Tóquio, tendo lançado cinco álbuns de estúdio, além de alguns EPs, um split com os estadunidenses do Pelican e um disco ao vivo com orquestra, gravado em Nova Iorque (EUA). Atualmente, a banda finaliza o sucessor de Hymn To The Immortal Wind, um dos melhores lançamentos de 2009 e, até o momento, o ápice da carreira do conjunto.



Boris – É praticamente impossível categorizar a música desse trio, que é também uma das bandas mais produtivas de seu país, com vários lançamentos por ano, entre álbuns, colaborações e splits. Cada trabalho do Boris tem uma abordagem diferente, que vai do pop rock ao doom metal sem o menor constrangimento. Dois registros que merecem destaque são o EP BXI, feito em parceria com Ian Astbury (The Cult); e Soundtrack From Film Mabuta No Ura, lançado no Brasil em 2005 pela Essence Music.



Sgt. – Também oriundo da capital japonesa, o Sgt. é mais um representante da cena post-rock, apesar de não ser tão conhecido quanto o Mono. Sua música é bastante original e eclética, com muitas influências de jazz, e em alguns momentos poderia até ser classificada como fusion, distinguindo o quarteto dos demais grupos do gênero. O trabalho mais recente da banda é o álbum Birthday, lançado no ano passado.



Acid Mothers Temple – Mesmo não apelando para um figurino bizarro, não tem como ficar indiferente ao visual desses caras que parecem saídos de uma máquina do tempo diretamente do festival de Woodstock. Musicalmente, a proposta do Acid Mothers Temple - um coletivo liderado pelo guitarrista Kawabata Makoto - é reproduzir a atmosfera daqueles anos lisérgicos, numa fusão de stoner, psicodelia e kraut-rock. De sua extensa discografia, três álbuns já foram lançados no Brasil: Ominous From The Cosmic Inferno, 41st Century Splendid Man Returns e Live In Occident, todos pela Essence Music.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Quem vem ouvir o Ho-ba-la-lá?

Diz lá a sinopse do livro: “Sehnsucht é a palavra alemã para anseio. Ela se aplica tanto ao passado, contexto em que se pode traduzi-lá por saudade, como ao presente ou ao futuro, caso em que designa um desejo ardente pelo que é, no fundo, inatingível”. Pois bem, vem daí o nome desse blog, assim mesmo, em alemão (até porque “Rádio Saudade” seria de matar).

Voltando ao livro. Uma fatalidade marcou a publicação de Ho-ba-la-lá na Alemanha: a poucos dias do lançamento, em abril de 2011, o autor, Marc Fischer, cometeu suicídio. Esse fato só faz aumentar a curiosidade acerca do trabalho; afinal, o jornalista e escritor teria ou não cumprido sua missão no Brasil antes de partir desta para melhor?

A tarefa não era fácil, para não dizer impossível. Fischer, acompanhado apenas de um violão centenário, deixa para trás Berlim e uma paixão, para encontrar, no calor do Rio de Janeiro, sua outra paixão: a Bossa Nova. E mais que isso, encontrar também João Gilberto, a quem pediria uma única coisa: que tocasse Hô-bá-lá-lá, a canção que mudou sua vida e o fizera viajar até ali. Esse é o ponto de partida de uma instigante e divertida história, na melhor tradição das tramas de detetive, em que Fischer e sua assistente brasileira Rachel seguem inúmeras pistas em busca do mais inacessível artista brasileiro.

Para chegar ao atual paradeiro do ídolo, Marc Fischer precisa voltar no tempo e montar um complexo quebra-cabeça a partir de depoimentos de pessoas que convivem ou conviveram com o músico: expoentes da Bossa Nova, como Miúcha, João Donato, Marcos Valle, Joyce e Roberto Menescal; a jornalista Claudia Faissol, com quem João tem uma filha de oito anos; e o cozinheiro Garrincha, que por cinco anos preparou um dos pratos preferidos do baiano radicado no Rio. A investigação também leva o “detetive” a Diamantina, em Minas Gerais, onde, há mais de meio século, João Gilberto se refugiou e desenvolveu seu estilo, literalmente, na privada.

De certa forma, Ho-ba-la-lá remete a outra obra, também alemã, Cabeça de Turco, clássico do jornalismo literário de Günter Wallraff, talvez pelo afinco dos autores em ir até as últimas consequências para aplacar seus anseios: Wallraff, de denunciar o tratamento desumano dado aos imigrantes em seu país; Fischer, de encontrar o coração da beleza. Se ambos foram bem-sucedidos, só lendo os dois livros para saber.

Roberto Menescal havia alertado: “Ele [João Gilberto] muda as pessoas com quem tem contato. É capaz de você se tornar um amaldiçoado para todo o sempre”. Seria Marc Fischer mais uma vítima da “maldição”? Inútil se perder em conjecturas. Felizmente, houve tempo para que deixasse seu legado, na forma desse belo registro.